sexta-feira, 13 de março de 2020


13 de Março

HUMILDADE DE SÃO JOSÉ


HUMILDADE DE SÃO JOSÉ NO EVANGELHO.

         Tudo nos fala da humildade de São José nas páginas do Evangelho. Maria foi tão pequenina e simples, tão silenciosa e oculta! O anjo a louva: cheia de graça, e anuncia-lhe a Encarnação do Verbo e Ela responde: Ecce ancila Domini — eis aqui a escrava do Senhor. E no entanto mais do que as rainhas todas da terra, bendita entre as mulheres, era a Mãe do próprio Deus! Que humildade profunda a de Nossa Senhora! Tal foi também a humildade de São José. Sempre na penumbra, no silêncio, foi uma sombra do Pai Eterno no mistério da Encarnação. João Batista e os Apóstolos tinham por missão sublime revelar Jesus ao mundo, pregar o Verbo Encarnado. José devia ocultá-lo, desde a Anunciação até os últimos dias da vida de Nazaré. O Divino Espírito Santo cercou toda a vida do Santo Patriarca de silêncio e de humildade. Era nobre, da família de Davi, descendente de Salomão, o mais rico e poderoso dos reis da terra. E no entanto, nos dias de vida de José, a família ilustre e real a que pertencia havia decaído e estava na obscuridade. Quem reconheceria naquele carpinteiro humilde um homem de sangue real, da casa gloriosa de Davi?
         A riqueza é outra fonte de orgulho. E poderia ter sido rico São José. Deus o fez bem pobre para receber o Rei dos reis, o Senhor dos senhores que se fez pobre por nosso amor. Sofreu as privações duras da pobreza, do exílio, da miséria. Viu o Filho de Deus nascer numa estrebaria!
         As honras trazem também consigo o orgulho da vida. José não recebeu sequer uma só homenagem dos homens. Até ao se referirem a Jesus, que fazia prodígios e falava a ponto de arrebatar as turbas, perguntavam todos, verdadeiramente surpreendidos: Não é Ele o Filho do carpinteiro? Era como se dissessem: Não é o Filho de José, aquele pobre operário? Na visita dos Magos a Belém, na Apresentação do Templo, no encontro de Jesus no Templo entre os doutores, louvam, glorificam, admiram todos o Deus-Menino. José passa ignorado e silencioso . Sempre a desempenhar a missão original de sombra do Verbo Incarnado. Nada brilha, tudo é humildade e silêncio em torno de José.
         Houve santo mais humilde?

A MAIOR PROVA DA HUMILDADE DE SÃO JOSÉ.

         Onde brilhou a humildade de José foi na ocasião em que Maria, após o mistério da Incarnação, lançou na perplexidade e numa terrível angústia a alma do seu santíssimo Esposo. Quis deixá-la ocultamente. Interpretaram alguns que por suspeita e erro de julgamento. Tal opinião é indigna de José e de sua santíssima Esposa. Nunca duvidou da pureza virginal de Maria. Viu-se diante de um mistério que o encheu de temor.
         Discutem os teólogos, mas uma opinião, hoje aceita pela maioria dos melhores e maiores teólogos josefinos e por santos doutores como São Basílio, São Bernardo, Orígenes, Teofilacto, e também confirmada nas Revelações de Santa Brígida, opinião esta tão segura e bem fundamentada nas melhores interpretações do Evangelho, é a de que José teve conhecimento do mistério da Incarnação antes que o anjo lho viesse avisar, e por humildade quis deixar sua Esposa.
         São Bernardo, sintetizando todos os autores antigos e a sua própria interpretação do Evangelho, pergunta: Por que razão São José quis abandonar Maria? E responde: Ouçamos não a minha própria opinião, mas a dos Santos Padres. Foi pela mesma razão porque São Pedro quis afastar de si o Mestre: “Afasta-te de mim, Senhor, porque sou um homem pecador.” Pelo mesmo motivo pelo qual o centurião dizia a Jesus: Senhor, eu não sou digno que entreis em minha casa!
         Assim também José julgou-se indigno e pecador, e ao meditar consigo a grandeza da Maternidade Divina, sentiu que não era possível mais considerar-se esposo da Mãe do Redentor e soberana Senhora dos céus e da terra. Observava, cheio de santo temor, o sinal claríssimo da Divina Presença do Verbo Incarnado, e como não podia compreender o mistério, quis abandonar Maria. (Homil. II — Super Missus est.) Nossa Senhora revelou isto a Santa Brígida: “José nunca teve contra mim qualquer suspeita. Mas ao lembrar o que disseram os Profetas que anunciavam o nascimento do Messias de uma Mãe virgem, julgou-se indigno de me servir, até que em sonhos o anjo lhe ordenasse que me servisse sem temor e com toda caridade.” (Lib. VII — cap. 15.)
         Esta opinião tão segura e sustentada por tantos santos doutores, mais honra a Maria e confirma a virtude mais admirável de São José: sua profundíssima humildade.

E X E M P L O
A mensagem de São José
         Num dos quarteirões de Paris residia uma família dotada de alguma fortuna. Um casal e a filha, chamada Josefina. Viviam felizes, em prosperidade de negócios. Nada lhes faltava. Imprevidentes, gastavam quanto iam recebendo, sem economias para o futuro e sem cuidado na aplicação das rendas. Um dia, caiu enfermo o chefe da casa e maus negócios os levaram rapidamente a uma extrema miséria. Deixaram o palacete confortável, obrigados pelos credores, e foram morar em pobre mansarda, num dos subúrbios longínquos da grande cidade. Os pobres velhos choravam, abatidos e desanimados. Josefina, porém, não perdia a calma e o sorriso habituais. Era boa costureira e bordava com perfeição. Procurava trabalho e dia e noite não descansava. Saía cada tarde a entregar as peças e com o dinheiro recebido comprava sempre o necessário para a casa. Muita vez; pobrezinha!, voltava de mãos vazias. Passavam algum dia sem alimento suficiente. Resolve procurar uma colocação, onde possa contar com ordenado certo cada mês e com trabalho extraordinário e noturno, para dar algum conforto aos pais. Entregou a sua causa a São José. O tempo vai passando. Sempre aquela vida atribulada e incerta, semeada de lágrimas, não raro de alguma fome.
         Aproximava-se a festa do Patrocínio de São José. A moça piedosa e devotíssima do Padroeiro de todas as necessidades teve uma idéia original. Entra no quarto pobre, toma uma folha de papel e escreve uma carta a São José pedindo um emprego, um meio de ganhar a vida e sair daquela situação embaraçosa. Ingenuamente assina: Josefina de tal, residente em tal rua — Bairro de Paris — costura, borda com perfeição.
         Dobra o escrito, amarra-o com uma fitinha, vai a uma gaiola onde trazia presa uma linda pomba, dependura-lhe o bilhete sob uma das asas e solta-a, dizendo: Vai, pombinha querida, vai para onde São José te mandar e hoje mesmo venha a resposta do céu! Era um gesto de ingênua e doce confiança no Patrono das causas mais desesperadas. E, depois, Josefina sentiu-se feliz e tranqüila. Não invocara São José em vão. Poucas horas depois, um carro pára defronte da porta da humilde mansarda.
         Um senhor bem trajado e ainda moço pergunta:
         — Mora aqui a senhorita Josefina de tal?
         — Sim, responde a jovem, sou eu mesma.
         — Escreveu, a senhorita, êste bilhete?
         — Sim, e como o foi encontrar?
         — Sob as asas de uma pobre pomba que entrou em meu escritório e de lá não queria sair. Observei que ela trazia este bilhete; li-o, e aqui estou. Sou devoto de São José. Resolvi abrir esta semana uma fábrica de roupas brancas e bordados. Faltava-me, porém, alguém para ensinar e dirigir as primeiras operárias. Pedi a São José que ma arranjasse. Providencialmente, entra-me a pombinha pelo escritório a dentro, encontro êste bilhete e venho a saber que, aqui, a senhorita Josefina e seus pais sofrem privações. Permita-me, senhorita, que lhe ofereça já uma quantia para solver os compromissos de que fala no bilhete, e quero desde já contratá-la para dirigir minha oficina.
         Os velhos pais choravam de alegria e da mais profunda gratidão.
         — Como São José é bom! disseram todos juntos.
         Em breve, Josefina estava à frente das oficinas vastas, no centro de Paris.
         O patrão se pôs a observá-la e notou ser, a jovem, de fina educação, bondosa, modesta, rica de prendas.
         E de uma simpatia mútua chegaram ao noivado e ao casamento. Os negócios prosperaram. Voltaram os bons tempos de outrora. No lugar de honra do salão principal do palacete, foi colocada uma bela estátua de São José. E aos pés da imagem uma pombinha branca embalsamada, e em letras douradas no pedestal: “A mensageira de São José”.
(Millot, “Thesor” — Sur Saint Joseph.)

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