MÊS DE PREPARAÇÃO PARA
CONSAGRAÇÃO A NOSSA SENHORA
DÉCIMO QUARTO DIA (14)
ORAÇÕES PARA CADA DIA
LADAINHA DO ESPÍRITO
SANTO
Senhor, tende piedade de nós,
Jesus Cristo, tende piedade de nós.
Senhor, tende piedade de nós.
Jesus Cristo, ouvi-nos.
Jesus Cristo, atendei-nos.
Pai celeste, que sois Deus, tende piedade de nós.
Filho, Redentor do mundo, que sois Deus, tende piedade de
nós.
Espírito Santo, que sois Deus. tende piedade de nós.
Santíssima Trindade, que sois um só Deus, tende piedade de
nós.
Espírito, que procedeis do do Pai e do Filho, tende piedade
de nós.
Espírito do Senhor, que no começo do mundo, pairáveis sôbre
as águas, e as tomáveis fecundas, tende piedade de nós.
Espírito, por instrução do qual os santos homens de Deus falaram.
Espírito, cuja unção nos ensina tôdas as coisas.
Espírito, que dais testemunho de Jesus Cristo, Espírito de
verdade, que nos instruis em tôdas as coisas, Espírito que repousastes sobre
Maria,
Espírito do Senhor, que encheis tôda a terra,
Espírito de Deus, que estais em nós,
Espírito de sabedoria e de inteligência,
Espírito de conselho e de fortaleza,
Espírito de ciência e de piedade,
Espírito de temor de Deus, Espírito de graça e de
misericórdia,
Espírito de fôrça de amor e de sobriedade,
Espírito de fé, esperança, caridade e de paz,
Espírito de humildade e de castidade,
Espirito de benignidade e de mansidão,
Espírito de tôda a sorte de graças,
Espírito que sondais até os segredos de Deus,
Espírito que rogais por nós com gemidos inefáveis,
Espírito que descestes sôbre Jesus Cristo sob a forma de uma
pomba.
Espírito pelo qual nós recebemos um novo nascimento.
Espírito que nos encheis os nossos corações de caridade.
Espírito de adoção dos filhos de Deus,
Espírito que aparecestes sobre os Discípulos sob a forma de
línguas de fogo.
Espírito pelo qual os Apóstolos foram possuídos,
Espírito, que distribuis os vossos dons a cada um segundo a
vossa vontade,
Sêde-nos propício, perdoai-nos, Senhor.
Sêde-nos propício, atendei-nos, Senhor.
De todo o mal, livrai-nos,
Senhor.
De todo pecado,
Das tentações e insídias do diabo,
De tôda presunção e desespero,
Da resistência à verdade conhecida,
Da obstinação e da impenitência,
Da impureza da alma e do corpo,
Do espírito de luxúria,
De todo mau espirito,
Por vossa eterna processão do Pai e do Filho,
Pela conceição de Jesus Cristo feita por operação vossa,
Por vossa descida sôbre Jesus Cristo no Jordão,
Pela vossa vinda sôbre os Discípulos,
No dia do juízo,
Pobres pecadores, nós
vos rogamos, escutai-nos.
A fim de que vivendo pelo espírito, também andemos segundo o
espírito,
A fim de que lembrando-nos de que somos o templo do Espírito
Santo, jamais o profanemos,
A fim de que vivendo segundo o espírito, não nos acomodemos
aos desejos da carne,
A fim de que pelo espírito mortifiquemos as obras da carne,
A fim de que não entristeçamos a vós, que sois o Espírito
Santo de Deus,
A fim de que tenhamos
cuidado de guardar a unidade do espírito no vínculo da paz,
A fim de que não demos crédito facilmente a todo espirito,
A fim de que provemos os espíritos para ver se êles de fato
vêm de Deus,
A fim de que renoveis em nós o espírito de retidão,
A fim de que nos confirmeis com o vosso espírito soberano.
Cordeiro de Deus, que tirais os pecados do mundo, perdoai-nos Senhor.
Cordeiro de Deus, que tirais os pecados do mundo, atendei-nos, Senhor.
Cordeiro de Deus, que tirais os pecados do mundo, tende piedade de nós.
OREMOS. Nós vos suplicamos, Senhor, que
nos assistais sem cessar pela virtude do vosso Espírito Santo, a fim de que
purificando por sua misericórdia as máculas dos nossos corações, Ele nos
preserve ainda de todos os males. Por Jesus Cristo Nosso Senhor. Amém.
LADAINHA DE NOSSA
SENHORA
Senhor, tende piedade de nós.
Jesus Cristo, tende piedade de nós.
Senhor, tende piedade de nós.
Jesus Cristo, ouvi-nos.
Jesus Cristo, atendei-nos.
Pai celeste, que sois Deus, tende piedade de nós
Filho, Redentor do mundo, que sois Deus,
Espírito Santo, que sois Deus.
Santíssima Trindade, que sois um só Deus,
Santa Maria, rogai por
nós.
Santa Mãe de Deus,
Santa Virgem das virgens,
Mãe de Jesus Cristo,
Mãe de divina graça,
Mãe puríssima,
Mãe castíssima,
Mãe imaculada,
Mãe intata,
Mãe amável,
Mãe admirável,
Mãe do bom conselho,
Mãe do Criador,
Mãe do Salvador,
Virgem prudentíssima,
Virgem venerável,
Virgem louvável,
Virgem poderosa,
Virgem benigna,
Virgem fiel,
Espelho de justiça,
Sede da sabedoria,
Causa de nossa alegria,
Vaso espiritual,
Vaso honorífico,
Vaso insigne de devoção,
Rosa mística,
Torre de Davi,
Tôrre de marfim,
Casa de ouro,
Arca da aliança,
Porta do céu,
Estréia da manhã,
Saúde dos enfermos,
Refúgio dos pecadores,
Consoladora dos aflitos,
Auxílio dos anjos,
Rainha dos patriarcas,
Rainha dos profetas,
Rainho dos apóstolos,
Rainha dos mártires,
Rainha dos confessores,
Rainha das virgens,
Rainha de todos os santos,
Rainha concebida sem pecado original,
Rainha assunta aos céus,
Rainha do santíssimo Rosário,
Rainha da paz,
Cordeiro de Deus, que tirais os pecados do mundo, perdoai-nos
Senhor.
Cordeiro de Deus, que tirais os pecados do mundo, ou- vi-nos,
Senhor.
Cordeiro de Deus, que tirais os pecados do mundo, tende
piedade de nós.
V. Rogai por nós, santa Mãe de Deus.
R. Para que sejamos dignos das promessas de Cristo.
OREMOS. Senhor Deus, nós vos suplicamos, que
concedais aos vossos servos lograr perpétua saúde de alma e corpo e que pela gloriosa bem-aventurada
sempre Virgem Maria sejamos livraes da presente tristeza e gozemos da eterna
alegria. Por Jesus Cristo nosso Senhor. Amém.
AVE, MARIS STELLA
Deus te salve, ó Estrela do mar,
E de Deus Mãe bela,
Sempre Virgem, da morada ,
Celeste feliz entrada.
Ó tu que ouviste da boca ,
Do anjo a saudação;
Dá-nos paz e quietação:
E o nome de Eva troca.
As prisões aos réus desata,
E a nós cegos alumia;
De tudo que nos maltrata
Nos livra, o bem nos granjeia.
Ostenta que és Mãe,
Fazendo que os rogos do povo seu,
Ouça aquêle que nascendo,
Por nós, quis ser Filho teu.
Ó Virgem especiosa,
Toda cheia de ternura.
Extintos nossos pecados.
Dá-nos pureza e brandura.
Dá-nos uma vida pura.
Põe-nos em vida segura.
Para que a Jesus gozemos,
E sempre nos alegremos.
A Deus Padre veneremos;
A Jesus Cristo também,
E ao Espírito Santo;
Demos aos três um
louvor. Amém.
SEGUNDO DIA (14)
MEDITAÇÃO — NOSSOS MAUS
HÁBITOS
PREPARAÇÃO
Os pecados
deixaram em nossa alma e em nossa vida terríveis consequências. Enfermidades na
inteligência, impando-nos de orgulho ridículo, e tão difícil, todavia, de
eliminar. Enfermidades na vontade, mau fermento que corrompe e debilita as
nossas tentativas para o exercício das virtudes verdadeiras. É preciso
renunciar-nos a nós mesmos e revestir-nos de Maria, a humilde Escrava do
Senhor, cheia de tôdas as graças e dons altíssimos de Deus.
MEDITAÇÃO
PRELÚDIOS
I — Qual
convalescente de grave doença, debilitado e sem forças, vejo diante de mim a
figura suave de Maria estimulando-me gentilmente a aceitar a cura que Ela me
oferece.
II — Maria,
Enfermeira Celeste de minha alma, ajudai-me a libertar-me dos hábitos maus,
triste relíquia dos pecados que nodoaram minha vida.
I PONTO — O orgulho da inteligência.
O pecado
original deixou em nossa inteligência uma vulneração de efeitos lastimáveis.
Temos dificuldades de entender as coisas de Deus, saber a verdadeira destinação
de nossa vida, aceitar a submissão, a docilidade, a obediência a Deus e a seus
representantes na terra. E nos inclinamos antes para as coisas sensíveis, nossa
mente como que se entorpece, não sabe ver nas criaturas o Criador, inclina-se a
considerar as coisas criadas como finalidade única. Mas, sobretudo, é para nós
mesmos que nos orientamos, esquecidos de Deus e de seus direitos,
deleitando-nos num amor excessivo e ilegítimo de nós mesmos, na tutela feroz
dos nossos pretensos direitos. E somos soberbos, orgulhosos, cheios de
presunção. E nos parece que a apoucada ciência que adquirimos nos dá direito de
afirmar nossas opiniões, impô-las a todos, criticando o próprio plano
providencial no governo do mundo... Que cegueira tremenda! Quão pouco nos
conhecemos deveras! Humilhemo-nos perante Deus. Sem humildade, nossa
inteligência não alcançará nunca seu verdadeiro caminho, seu alimento único,
sua glória e recompensa — Deus, a Verdade Suprema!
II PONTO — A debilidade da vontade.
Ainda mais
vulnerada que nossa inteligência, nossa vontade se encontra debilitada em
extremo para o exercício das virtudes. Máxime porque, aos pendores que em nós
deixou o pecado original acrescentamos inclinações viciosas, fruto dos nossos
próprios pecados. E se a Falta primeira veio reacender em nossos sentidos a
concupiscência que nos inclina para o mal contra os ditames da razão e da Fé,
nossos pecados como que trouxeram mais alimentos ainda para êsse fogo de
inferno sempre aceso em nossos sentidos. Como é fraca e imbele nossa fôrça de
resistência! Uma triste experiência nos ensina quanto mais facilmente cede
nossa fôrça de resistência! Uma triste experiência nos ensina quanto mais
facilmente cede nossa vontade à desordem de nossas concupiscências do que aos
convites para a elevação difícil das virtudes cristãs...
Como havemos
de confiar em nós? Assegurarmos da perseverança, se ousamos contar com a
instabilidade fragílima de nossa vontade, que a menor tentação pode atirar no
abismo?
Não. Não nos
iludamos. Reconhecer com humildade ante Deus a miséria de nossas quedas, sem
atribuí-las a circunstâncias exteriores, a tentações irresistíveis, mas
confessando-nos pecadores, em extremo perigo de condenar-nos, se Nosso Senhor
nos não acudir com misericordiosa salvação. Domine, salva nos, perimus! (Mat.
VIII, 25)
II PONTO — Recurso a Maria.
No paraíso,
Eva, nossa primeira infeliz mãe como que anuncia a desgraça de nossa
inteligência e de nossa vontade. Porque ela não soube reconhecer a tentação do
inimigo, o afastamento de Deus, a ruina que ia induzir sôbre todos os seus pobres
filhos. E quis sua elevação mentirosa até o trono da Divindade, ouvindo a
serpente falaz: eritis sicut dii (Gen. III, 5). Desventurada! mereceu-nos as
trevas, a fraqueza, a morte...
Maria,
porém, Nossa Mãe verdadeira, porque nos engendra para a vida preciosa da graça
e do céu, é nosso remédio e modelo alcar lorado. Isenta, por inefável
privilégio, da mancha original, plena de graça desde a sua Conceição Imaculada,
sua inteligência voa para Deus e se perde na contemplação do Infinito. Ela não se detém na
consideração de si mesma senão para humilhar-se ; ante Deus, e reconhecer-se
sua Escrava: respexit
humilitatem ancillae suae (Luc.).
Compreendia
seu dever de elevar-se ao Criador mediante as criaturas e de tal sorte subiu
nessa contemplação que mereceu atingir a mesma Divindade. E foi feita Mãe de
Deus e Mãe Nossa. E trouxe sobre todos os seus filhos a reparação da ruína,
mercê de seu Primogênito. E nos promete, com verdade, com humildade, com doce
sentimento de afeto maternal, que poderemos deveras “ser como Deus” pela graça
divina de seu Filho Jesus.
Busquemos
Maria, para remédio de nosso orgulho. Ela é a Escrava humilde, que entretanto
tôdas as gerações hão de bendizer em louvores eternos. Busquemos Maria para
medicina de nossa fraqueza. Ela é a Mulher Forte, que pisou a cabeça da
serpente infernal.
Humildes
escravos de Maria, teremos nós também, a glória de vencer o demônio, e subir
até Deus.
COLÓQUIO
Mãe bendita
e querida, dou-vos graças pela iluminação que me obtendes de Nosso Senhor, a
fim de que me vá conhecendo sempre mais, para me desprezar e desconfiar de mim
mesmo. Quanto orgulho e soberba em minha vida! Quanta fraqueza da minha
vontade, ainda mesmo quando procuro ocultar-me aos olhos dos outros, e parecer
mentirosamente aquilo que não sou! Pois que me preparo para dar-me de todo a
Vós, Minha Mãe, continuai vosso trabalho de mostrar a meus olhos envergonhados
tôdas as misérias de meu orgulho e de minhas inconfessáveis fraquezas.
Se as
relíquias do pecado original turbaram tanto minha mente e assim debilitaram
minha vontade, dai-me, Virgem Puríssima, a vosso Imaculada Conceição — tão
oposta ao pecado original —, para sanar minha inteligência e alentar minhas
resoluções de humildade, de perseverança no bem, confiado unicamente na graça
onipotente de Nosso Senhor e no carinho abençoado de vosso amparo tutelar!
RAMILHETE
Maria há de
mostrar-me o caminho da Sabedoria e conduzir-me nas sendas da Justiça.
Viam
sapientiae monstrabo tibi, ducam te per semitas a i qui tatis. (Prov. IV, 11).
SANTO EVANGELHO (Mt. XVI, 5 a 12).
O FERMENTO DOS FARISEUS
Ora, seus
discípulos, tendo passado a outra margem do lago, tinham-se esquecido de levar
pão. (Jesus) lhes disse: Vêde e guardai-vos dos fariseus e dos saduceus. Mas
êle descorriam entre si, dizendo: É que não trouxemos pão. Sabendo-o Jesus lhes
disse: “Homens de pouca fé, por que estais considerando convosco, por não
terdes pão? Ainda não compreendeis, nem vos lembrais dos cinco pães para cinco
mil homens, e quantos (foram) os cestos que recolhestes? Nem dos sete pães para
quatro mil homens, e quantas alcofas recolhestes? Por que não compreendeis que
não foi a respeito do pão que eu vos disse: Guardai-vos do fermento dos
Fariseus e dos Saduceus? Então compreenderam que não havia dito se guardassem do
fermento dos pães senão da doutrina dos Fariseus e dos Saduceus.
IMITAÇÃO DE CRISTO (L. 2, c. 5)
DESCONFIAR DE NÓS MESMOS
Não devemos
confiar demasiado em nós mesmos, porque muitas vêzes nos falta a graça e a
discrição.
Pouca luz há
em nós, e essa depressa a perdemos por nosso descuido.
Muitas vêzes
não conhecemos quão cegos estamos na alma.
Muitas vêzes
também obramos mal, e ainda pior nos desculpamos.
Às vêzes
move-nos à paixão, e cuidamos que é zêlo.
Repreendemos
nos outros as faltas pequenas, e desculpamos as nossas, posto que mais graves.
Mui depressa
sentimos e agravamos o que sofremos aos outros; mas não advertimos quando os
outros nos sofrem a nós.
O que bem e
retamente examinar suas obras, não terá que julgar severamente as alheias.
O homem de
vida interior, antepõe o cuidado de si mesmo a todos os outros cuidados; e com
diligência atende a si; com facilidade se abstém de falar dos outros.
Nunca serás
homem de vida interior e devoto, se não calares dos outros e tiveres especial
cuidado de ti.
Se de todo
te ocupares com Deus e contigo, pouco caso farás do que perceberes fora de ti.
Onde estás
quando não estás contigo? De que te aproveitou lembrares-te de tudo, se de ti
te esqueceste?
Se queres
ter paz e união verdadeira com Deus deves desprezar tudo o mais, pai a
cuidardes de ti só.
Muito
aproveitarás se te despires de todo cuidado terreno.
Muito
afrouxarás, se alguma coisa temporal tiveres em muito.
Não te
apareça coisa alguma alta, nem grande, nem aceita, nem agradável, senão Deus só,
e o que fôr de Deus.
Tem por vã
qualquer consolação que te vier da criatura.
A alma que
deveras ama a Deus despreza tudo o que não é de Deus.
Só Deus,
eterno, imenso, e que tudo enche, é a consolação da alma, e a verdadeira
alegria do coração.
LEITURA
(Montfort, T. V. D. n.° 173 a 176)
MARIA, PENHOR DE NOSSA
PERSEVERANÇA
Esta devoção
à Santíssima Virgem, é meio admirável para perseverar na virtude e ser sempre
fiel. Porquanto, de onde vem que a conversão da maior parte dos pecadores não é
duradoura? De onde vem que com tanta facilidade se torna a cair no pecado? De
onde vem que a maior parte dos justos, em lugar de adiantar-se de virtude em
virtude, e de adquirir novas graças, perdem muitas vezes até o pouco de
virtudes e graças que possuiam? Esta desgraça, vem de que o homem, sendo tão
corrompido, tão fraco e inconstante, confia em si mesmo, conta com o tesouro de
suas graças, de suas virtudes e de seus merecimentos.
Ora, por
esta devoção, confiamos à Santíssima Virgem tão fiel, tudo o que possuimos;
toma-la por depositária universal de todos os nossos bens da natureza e da
graça. É em sua fidelidade que confiamos, é em seu poder que nos esteiamos, é
com sua caridade e misericórdia que contamos, para que Ela conserve e aumente
nossas virtudes e nossos merecimentos, apesar do demônio, do mundo e da carne,
que se esforçam de todos os modos para nô-los arrebatar. Dizemos-lhe, como um
bom filho à sua mãe, e um fiel servo à sua senhora: Depositum custodis Minha
Mãe e Senhora, reconheço que, por vossa intercessão tenho até agora recebido de
Deus mais graças do que tenha merecido, e minha triste experiência ensina-me
que guardo êste tesouro em um vaso muito frágil; sendo demasiadamente fraco e
miserável para conservá-lo em mim mesmo, concedei-me esta graça: recebei em
depósito tudo o que possuo, e conservai-mo por vossa fidelidade e por vosso
poder. Se me guardardes, nada perderei; se me sustentardes, não cairei; se me
protegerdes, estarei coberto de meus inimigos.
É o que nos
diz São Bernardo em têrmos formais, para inspirar-nos esta prática. “Quando
Maria vos sustenta, não caís; quando vos proteje, nada temeis; quando vos
conduz, não vos fatigais; quando vos é propícia, chegais ao pôrto da salvação;
Ipsa tenente, non corruis; ipsa protegente, non metuis; ipsa duce, non
fatigaris; ipsa propotia, pervenis. São Boaventura parece ainda dizer o mesmo
em têrmos mais formais. “A Santíssima Virgem não só está contida na plenitude
dos santos, mas ainda contém e guarda os santos em sua plenitude, para que esta
não diminua; impede que se dissipem suas virtudes, que pereçam seus
merecimentos, que se percam suas graças, que os prejudique o demônio; impede
finalmente que Nosso Senhor, os castigue, quando pecam: Virgo non solum in
plenitudine Sanctorum detinetur, sed etiam in plenitudine Sanctos detinet, ne
plejnitudo minuantur; detinet virtutes nas fugiant; detinet merita ne pereant;
detinet gratias ne effluant; detinet, daemones ne noceant; detinet Filium se
paccatores percutiat”.
Maria
Santíssima é a Virgem fiel, que por sua fidelidade a Deus repara as perdas
causadas pela infidelidade da infiel Eva, e que alcança a fidelidade de Deus e
a perseverança àqueles e àquelas que a Ela se prendem. É por isso que um santo
a compara a uma âncora firme, que os retém e impede de naufragar no mar agitado
dêste mundo, onde perecem tantas pessoas por se não terem prendido a Maria
Santíssima. “Apegamos as almas à vossa esperança como a uma âncora firme:
Animas ad spem tuam sicut, ad firmam anchoram alligamus”. É a Ela que os santos
que se salvaram mais se agarraram e prenderam os outros, a fim de perseverar na
virtude. Bem-aventurados pois e mil vêzes bem-aventurados os cristãos que agora
se agarram a Ela fielmente e inteiramente, como a uma âncora firme e segura! Os
esforços da tempestade dêste mundo não os poderão submegir nem fazer que percam
seus celestes tesouros. Bem-aventurados aquêles que nela entram como na arca de
Noé! As águas do dilúvio dos pecados, que afogam tanta gente, não lhes farão
mal algum, porque: “Qui operantur in me non peccabunts, Aqueles que estão em
mim a fim de trabalharem para sua salvação, não hão de pecar”, diz Ela com a
Sabedoria. Bem-aventurados os filhos fiéis da infeliz Eva, que se agarram a
Maria, à Virgem que permanece sempre fiel e nunca se contradiz: Fidelis
permanet, se ipsam negare non potest, e que ama sempre aqueles que a amam: Ego
diligentes me diligo, não só com um amor afetivo, mas com um amor efetivo e
eficaz, impedindo-os, por uma grande abundância de graças, de retroceder na
virtude e de cair no meio do caminho, perdendo a graça de seu filho.
Essa boa Mãe
recebe sempre, por pura caridade, tudo o que lhe damos em depósito; e, uma vez
que o recebeu a título de depositário, está obrigada por justiça, em virtude do
contrato de depósito, a nô-lo conservar; da mesma forma que uma pessoa, em
cujas mãos eu tivesse depositado mil escudos, teria obrigação de guardá-los de
maneira que, se viesse a perdê-los, mesmo por negligência, seria em tôda a
justiça responsável por êles. A divina Maria, porém, não deixará que, por sua
negligência, se perca o que lhe confiamos: mais depressa o céu e a terra
passariam do que Ela seria negligente e infiel para com os que nela se fiam.
O verdadeiro devoto da sempre Virgem Maria nunca se condenara.
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