MÊS DE PREPARAÇÃO PARA CONSAGRAÇÃO A
NOSSA SENHORA
DÉCIMO
TERCEIRO DIA (13)
PRIMEIRA SEMANA
(Conhecimento de nós
mesmos)
“Durante a
primeira semana dirigirão tôdas as orações e atos de piedade ao fito de alcançar
o conhecimento de nós mesmos e a contrição dos próprios pecados, tudo fazendo
em espírito de humildade (T.V.D.)”.
Êste período
não é repetição dos doze dias preliminares. Aqui nos concentraremos melhor sôbre
nós mesmos; depois de fugir ao espírito do mundo, orientaremos nosso esforço à
conquista da humildade, vitrude absolutamente fundamental na vida cristã, e
portanto, com maioria de razão, de todo indispensável aos que almejam pertencer
a Nossa Senhora em estado de perfeição mais elevado.
Ademais,
queremos ir a Jesus por Maria, a quem consideramos Caminho seguro, curto e
suave. Ora, para nos convencermos eficazmente da necessidade de buscar esta Via
Imaculada, nada melhor do que nos inteirarmos profundamente da imensidade de
nossa própria miséria e triste condição, tão afastada da grandeza de Deus.
Êste exame,
enfim, tão penoso para nós, será suavizado por Nossa Senhora, que ameigará com
seu carinho materno a miséria de nossos pecados, a fim de que não cheguemos aos
extremos de irritação contra nós mesmos nem aos desânimos do desespero, mas
antes alcancemos a doce paz prometida aos humildes de coração.
ORAÇÕES PARA CADA DIA
PRIMEIRA SEMANA
LADAINHA DO ESPÍRITO
SANTO
Senhor, tende piedade de nós,
Jesus Cristo, tende piedade de nós.
Senhor, tende piedade de nós.
Jesus Cristo, ouvi-nos.
Jesus Cristo, atendei-nos.
Pai celeste, que sois Deus, tende piedade de nós.
Filho, Redentor do mundo, que sois Deus, tende piedade de
nós.
Espírito Santo, que sois Deus. tende piedade de nós.
Santíssima Trindade, que sois um só Deus, tende piedade de
nós.
Espírito, que procedeis do do Pai e do Filho, tende piedade
de nós.
Espírito do Senhor, que no começo do mundo, pairáveis sôbre
as águas, e as tomáveis fecundas, tende piedade de nós.
Espírito, por instrução do qual os santos homens de Deus falaram.
Espírito, cuja unção nos ensina tôdas as coisas.
Espírito, que dais testemunho de Jesus Cristo, Espírito de
verdade, que nos instruis em tôdas as coisas, Espírito que repousastes sobre
Maria,
Espírito do Senhor, que encheis tôda a terra,
Espírito de Deus, que estais em nós,
Espírito de sabedoria e de inteligência,
Espírito de conselho e de fortaleza,
Espírito de ciência e de piedade,
Espírito de temor de Deus, Espírito de graça e de
misericórdia,
Espírito de fôrça de amor e de sobriedade,
Espírito de fé, esperança, caridade e de paz,
Espírito de humildade e de castidade,
Espirito de benignidade e de mansidão,
Espírito de tôda a sorte de graças,
Espírito que sondais até os segredos de Deus,
Espírito que rogais por nós com gemidos inefáveis,
Espírito que descestes sôbre Jesus Cristo sob a forma de uma
pomba.
Espírito pelo qual nós recebemos um novo nascimento.
Espírito que nos encheis os nossos corações de caridade.
Espírito de adoção dos filhos de Deus,
Espírito que aparecestes sobre os Discípulos sob a forma de
línguas de fogo.
Espírito pelo qual os Apóstolos foram possuídos,
Espírito, que distribuis os vossos dons a cada um segundo a
vossa vontade,
Sêde-nos propício, perdoai-nos, Senhor.
Sêde-nos propício, atendei-nos, Senhor.
De todo o mal, livrai-nos,
Senhor.
De todo pecado,
Das tentações e insídias do diabo,
De tôda presunção e desespero,
Da resistência à verdade conhecida,
Da obstinação e da impenitência,
Da impureza da alma e do corpo,
Do espírito de luxúria,
De todo mau espirito,
Por vossa eterna processão do Pai e do Filho,
Pela conceição de Jesus Cristo feita por operação vossa,
Por vossa descida sôbre Jesus Cristo no Jordão,
Pela vossa vinda sôbre os Discípulos,
No dia do juízo,
Pobres pecadores, nós
vos rogamos, escutai-nos.
A fim de que vivendo pelo espírito, também andemos segundo o
espírito,
A fim de que lembrando-nos de que somos o templo do Espírito
Santo, jamais o profanemos,
A fim de que vivendo segundo o espírito, não nos acomodemos
aos desejos da carne,
A fim de que pelo espírito mortifiquemos as obras da carne,
A fim de que não entristeçamos a vós, que sois o Espírito
Santo de Deus,
A fim de que tenhamos
cuidado de guardar a unidade do espírito no vínculo da paz,
A fim de que não demos crédito facilmente a todo espirito,
A fim de que provemos os espíritos para ver se êles de fato
vêm de Deus,
A fim de que renoveis em nós o espírito de retidão,
A fim de que nos confirmeis com o vosso espírito soberano.
Cordeiro de Deus, que tirais os pecados do mundo, perdoai-nos Senhor.
Cordeiro de Deus, que tirais os pecados do mundo, atendei-nos, Senhor.
Cordeiro de Deus, que tirais os pecados do mundo, tende piedade de nós.
OREMOS. Nós vos suplicamos, Senhor, que
nos assistais sem cessar pela virtude do vosso Espírito Santo, a fim de que
purificando por sua misericórdia as máculas dos nossos corações, Ele nos
preserve ainda de todos os males. Por Jesus Cristo Nosso Senhor. Amém.
LADAINHA DE NOSSA
SENHORA
Senhor, tende piedade de nós.
Jesus Cristo, tende piedade de nós.
Senhor, tende piedade de nós.
Jesus Cristo, ouvi-nos.
Jesus Cristo, atendei-nos.
Pai celeste, que sois Deus, tende piedade de nós
Filho, Redentor do mundo, que sois Deus,
Espírito Santo, que sois Deus.
Santíssima Trindade, que sois um só Deus,
Santa Maria, rogai por
nós.
Santa Mãe de Deus,
Santa Virgem das virgens,
Mãe de Jesus Cristo,
Mãe de divina graça,
Mãe puríssima,
Mãe castíssima,
Mãe imaculada,
Mãe intata,
Mãe amável,
Mãe admirável,
Mãe do bom conselho,
Mãe do Criador,
Mãe do Salvador,
Virgem prudentíssima,
Virgem venerável,
Virgem louvável,
Virgem poderosa,
Virgem benigna,
Virgem fiel,
Espelho de justiça,
Sede da sabedoria,
Causa de nossa alegria,
Vaso espiritual,
Vaso honorífico,
Vaso insigne de devoção,
Rosa mística,
Torre de Davi,
Tôrre de marfim,
Casa de ouro,
Arca da aliança,
Porta do céu,
Estréia da manhã,
Saúde dos enfermos,
Refúgio dos pecadores,
Consoladora dos aflitos,
Auxílio dos anjos,
Rainha dos patriarcas,
Rainha dos profetas,
Rainho dos apóstolos,
Rainha dos mártires,
Rainha dos confessores,
Rainha das virgens,
Rainha de todos os santos,
Rainha concebida sem pecado original,
Rainha assunta aos céus,
Rainha do santíssimo Rosário,
Rainha da paz,
Cordeiro de Deus, que tirais os pecados do mundo, perdoai-nos
Senhor.
Cordeiro de Deus, que tirais os pecados do mundo, ou- vi-nos,
Senhor.
Cordeiro de Deus, que tirais os pecados do mundo, tende
piedade de nós.
V. Rogai por nós, santa Mãe de Deus.
R. Para que sejamos dignos das promessas de Cristo.
OREMOS. Senhor Deus, nós vos suplicamos, que
concedais aos vossos servos lograr perpétua saúde de alma e corpo e que pela gloriosa bem-aventurada
sempre Virgem Maria sejamos livraes da presente tristeza e gozemos da eterna
alegria. Por Jesus Cristo nosso Senhor. Amém.
AVE, MARIS STELLA
Deus te salve, ó Estrela do mar,
E de Deus Mãe bela,
Sempre Virgem, da morada ,
Celeste feliz entrada.
Ó tu que ouviste da boca ,
Do anjo a saudação;
Dá-nos paz e quietação:
E o nome de Eva troca.
As prisões aos réus desata,
E a nós cegos alumia;
De tudo que nos maltrata
Nos livra, o bem nos granjeia.
Ostenta que és Mãe,
Fazendo que os rogos do povo seu,
Ouça aquêle que nascendo,
Por nós, quis ser Filho teu.
Ó Virgem especiosa,
Toda cheia de ternura.
Extintos nossos pecados.
Dá-nos pureza e brandura.
Dá-nos uma vida pura.
Põe-nos em vida segura.
Para que a Jesus gozemos,
E sempre nos alegremos.
A Deus Padre veneremos;
A Jesus Cristo também,
E ao Espírito Santo;
Demos aos três um
louvor. Amém.
PRIMEIRO DIA (13)
MEDITAÇÃO — O PECADO EM
NOSSA VIDA ESPIRITUAL
PREPARAÇÃO
Elevados às
maiores honras pela graça sobrenatural do Batismo, nós nos esquecemos da
nobreza dessa linhagem divina e degeneramos dela, com os nossos pecados. É
preciso conhecer a própria miséria, renunciar-nos. E escolher dentre as devoções
a Nossa Senhora aquela que nos leve a morrer para nós mesmos, para vivermos em
Jesus Cristo e nos salvarmos.
MEDITAÇÃO
PRELÚDIOS
I —
Represento-me cheio de feridas repelentes e dolorosas. Maria ao meu lado,
estende as mãos para curar minhas chagas.
II — Minha
Mãe, suave Enfermeira de minhas misérias e dores, ensinai-me a aceitar o
tratamento que minha natureza quer repelir, mas que me há de levar a vosso
imaculado regaço.
I
PONTO — Os nossos pecados
(Cfr. T.V.D. n." 78, seg.).
Nossas
melhores ações são de ordinário manchadas e corrompidas pelo mau fundo que há
em nós. Quando se coloca água limpa e clara em um vaso sujo ou vinho num
recipiente azedado por outro vinho, a água pura e o bom vinho se estragam e
tomam o mau odor das vasilhas. Assim também quando Deus coloca no vaso de nossa
alma, estragado pelo pecado original e atual, suas graças e orvalhos celestes ou
o vinho delicioso de seu amor, seus dons são de ordinário estragados e
manchados pelo mau fermento e fundo perverso que o pecado deixou dentro de nós.
E nossas boas ações, mesmo as mais sublimes, disso se ressentem. Cumpre, logo
que nos libertemos de tudo quanto há de mau em nós. De outra sorte, o Senhor,
que é infinitamente puro e que detesta soberanamente tôda a nódoa na alma, nos
lançará de si e não se unirá à nós.
Procuremos,
pois, conhecer, à luz do Divino Espírito Santo, nosso fundo mau, nossa
incapacidade para todo o bem, nossa fraqueza em todas as coisas, nossa
inconstância em todo o tempo, nossa indignidade de tôda graça, nossa iniqüidade
em todo lugar. O pecado original nos estragou e corrompeu como um fermento mau
que corrompe tôda a massa. Os pecados atuais que cometemos, mortais ou veniais,
perdoados ou não. ainda aumentaram a nossa concupiscência, fraqueza e
inconstância e corrupção, deixando tristes vestígios em nossa alma.
II PONTO — Necessidades de renunciar-nos (ibidem).
Assim,
havemos de nos renunciar inteiramente: A nosso corpo, a nossa alma, às nossas
operações do corpo e da alma.
Ao nosso
corpo, porque, de tão corrompido, êle é chamado pelo Espírito Santo corpo de
pecado, concebido no pecado, nutrido no pecado, somente capaz de pecar, exposto
a mil doenças, dia a dia sujeito à corrupção, viveiro de enfermidades, de
vermes, de morte.
À nossa
alma, porque, unida a nosso corpo, tornou-se tão carnal que é chamada carne:
“Tendo tôda a carne corrompido seu caminho (Gen. VI, 12). Por partilha temos
somente a soberba e cegueira no espírito, o endurecimento no coração, a
fraqueza e inconstância na alma, a concupiscência, as paixões revoltadas e as
doenças no corpo. Como os animais vis e repelentes, nós somos propensos à lama,
invejosos, gulosos, coléricos, preguiçosos, fracos e inconstantes.
E nos
devemos admirar se nos afirma Jesus que aquêle que O quer seguir deve renunciar
a si mesmo, odiar sua alma; que aquêle que ama sua alma, perdê-la-á e o que a
odeia a salvará? A Sabedoria infinita não nos diz que nos odiemos senão porque
sabe quanto somos dignos de ódio. Nada tão digno de amor como Deus, nada tão
digno de ódio como nós mesmos.
Havemos
de renunciar também às operações de nosso corpo e de nossa alma. Morrer todos
os dias a nós mesmos. Ver como se não víssemos, ouvir como se não ouvíssemos,
servir-nos das coisas dêste mundo como se delas não nos servíramos. A isto chamava
São Paulo morrer todos os dias, quotidie inorior (I. Cor. XV, 31).
Sem esta
renúncia necessária, ser-nos-á impossível viver para Deus.
III PONTO — A devoção a Maria nos leva à morte de nós
mesmos.
A melhor e
mais santificadora dentre tôdas as devoções a Nossa Senhora será,
conseqüentemente a que mais eficazmente nos levar a essa renúncia de nós mesmos
e de morte à nossa má natureza.
Será a que
nos ensina a cumprir a palavra do Evangelho: Se o grão de fermento, caindo na
terra, não morrer, ficará sozinho (Jo. XII, 24). Se, pois, não morrermos a nós
mesmo, e se nossas devoções inda as mais santas não nos levarem a esta morte
necessária e fecunda, não produziremos fruto nenhum que tenha valor, serão
inúteis nossas devoções, tôdas as nossas obras de justiça serão manchadas por
nosso amor próprio e vontade desorientada, o que fará a Deus voltar sua face
aos maiores sacrifícios e mais notáveis ações que possamos realizar. E na hora
de nossa morte, nos encontraremos vazios de virtudes e de méritos, não possuindo
nem uma fagulha do puro amor que se não comunica senão às almas mortas a si
mesmas e cuia vida está oculta com Cristo em Deus (Colos. III, 3).
Todavia,
assim como a natureza tem segredos para levar a cabo em pouco tempo, com
facilidade e pequeno esforço certas operações naturais, da mesma sorte há
segredos na ordem da graça para fazer em pouco tempo, com doçura e facilidade
operações sobrenaturais, renunciar-se inteiramente a si mesmo, replenar-se de
Deus e atingir a santidade.
A prática da
escravidão de amor a Nossa Senhora, obrigando-nos a essa renúncia e morte
salutares, entregando-nos inteiramente a Maria para que Ela nos afeiçoe à
imitação de Jesus, será nossa doce garantia e celeste penhor de santidade.
COLÓQUIO
Mãe
Imaculada, tenho os olhos cheios de lágrimas de dôr, de contrição e de vergonha
de meus pecados! Como me sinto mesquinho e repelente a vossos olhares! Meus
pecados me fazem objeto de ódio. Mas vossa bondade me desvela como um objeto de
amor! Quero, Minha Mãe, entregar-me a vossos cuidados. Alimpai-me, tornai-me
puro aos olhos de Jesus, inteiramente despojado de mim mesmo, e ornado
suavemente com as jóias de vossa Imaculada Conceição !Aceito o vosso império
carinhoso sôbre minha alma. Vou escravizar-me a vosso serviço, para que renunciado
de todo a minhas misérias possa re- vestir-me das riquezas de Jesus Cristo.
RAMILHETE
Virgem
singular, entre tôdas suavíssima, liber-tai-nos de nossas culpas, revesti-nos
de vossas virtudes.
Virgo singularis Inter omnes mitis
Nos culpis solutos
Mites fac et castos!
(Hin. Ave Maris Stella)
SANTO EVANGELHO (Mt.
III, 1-12)
PREGAÇÃO DE JOÃO
BATISTA
Naqueles
dias, pois, apareceu João Batista, pregando no deserto da Judéia, e dizendo:
Fazei penitência, porque se aproxima o Reino dos Céus. Porquanto, é êste de
quem falou o profeta Isaias dizendo: preparai os caminhos do Senhor, endireitai
as suas veredas. Ora, o mesmo João tinha uma veste de peles de camelos e uma
cinta de couro, em tôrno dos seus rins; e eram seu alimento gafanhoto e mel silvestre.
Então vinha a ter com êle Jerusalém e tôda Judéia, e tôda a circunvizinhança do
Jordão. E confessando os seus pecados, eram por êle batizados no Jordão. Mas
vendo que muitos dos Fariseus e dos Saduceus vinham ao seu batismo, disse-lhe:
Raça de víboras, quem vos ensinou a fugir da ira vindoura? Fazei pois dignos
frutos de penitência. E não queirais dizer convosco: temos por pai a Abraão;
porque vos digo que poderoso é Deus para fazer que destas pedras nasçam filhos
a Abraão. Porque já o machado está posto à raiz das árvores. Tôda árvore, pois,
que não dá bom fruto será cortada e lançada ao fogo. Eu na verdade vos batizo
em água para (vos trazer à) penitência; porém Aquêle que há de vir depois de
mim é mais poderoso do que eu, e eu não sou digno de Lhe ministrar o calçado;
Êle vos batizará no Espírito Santo e em fogo. Nas suas mãos tem Êle a sua pá, e
limpará muito bem a sua eira, e recolherá o seu trigo no celeiro, e as palhas
quei-ma-las-á num fogo inextinguível.
IMITAÇÃO
DE CRISTO
O CULTIVO DO TEMOR DE
DEUS
Se queres
fazer algum progresso, conserva-te no temor de Deus, e não queiras ser
demasiadamente livre; mas com severidade refreia todos os teus sentidos, e não
te deixes levar de vã alegria.
Dá-te à
compunção do coração e acharás devoção.
A compunção
causa muitos bens, que a dissipação costuma perder em breve.
É para
admirar que o homem possa alegrar-se alguma vez perfeitamente nesta vida
considerando-a como um destêrro, e pensando nos muitos perigos de sua alma...
Conhece que
és indigno da consolação divina, e merecedor de muitas tribulaçi es.
Quando o
homem tem perfe.ta compunção, logo lhe é pesado e amargo todo o mundo.
O justo acha
sempre matéria bastante para afligir-se e chorar; porque, ou se considere a si
mesmo, ou pense em seu próximo, sabe que ninguém passa esta vida sem
tribulações.
E quando
mais atentamente se considera, tanto mais profunda é sua dor.
Matéria de
justa dor e entranhável compunção são nossos pecados e vícios, aos quais tão
miseravelmente estamos presos que raramente podemos con-templar as coisas do
céu.
Se mais
amiúde pensasses em tua morte que em viver largo tempo, não duvido que te
emendarias com mais fervor.
Se também de
todo o coração pensares nas penas futuras do inferno ou do purgatório, creio
que de bom grado sofrerias qualquer trabalho e dor, e não temerias nenhuma
austeridade; porém, como estas coisas nos não entram no coração, e amamos
sempre o regalo, ficamos frios e preguiçosos.
LEITURA
(Montfort, A. S. E., pg. 78, sg.)
DESGRAÇA DO HOMEM AO
PERDER A SABEDORIA
A
onipotência e doçura da Eterna Sabedoria brilharam na Criação, na beleza e
ordem do universo, mas muito mais na formação do homem. Ele é a obra prima da
Sabedoria, imagem viva de sua beleza e perfeições, receptáculo de suas graças,
tesouro admirável de suas riquezas, substituto de Deus na terra: Sapientia lua
constituisti hominem ut dominaretur creaturae quae a te jacta est. (Sab IX, 2).
Para glória
desta bela e poderosa Artífice, seria mister aqui explicar a beleza e
excelência originárias que Dela recebeu o homem, em sua criação. Mas o pecado
infinito que êle perpetrou, e cujas trevas se estenderam até mim, miserável
filho de Eva, de tal sorte me obscureceram o entendimento que delas não posso
falar senão de maneira muito imperfeita.
A Sabedoria
fêz, por assim dizer, cópias e expressões luminosas de seu entendimento, de sua
memória, de sua vontade, e deu-as à alma do homem, para que fôsse vivo retrato
da Divindade. Acendeu-Ihe no coração um incêndio de puro amor de Deus,
formou-lhe um corpo luminoso, e nêle encerrou como um compêndio, as diversas
perfeições dos Anjos, dos animais e das outras criaturas.
Tudo no
homem era luz sem trevas, beleza sem defeitos, pureza sem nódoas, ordem sem
desvios, nenhuma imperfeição, mancha alguma. Por apanágio, tinha a luz da
Sabedoria no espírito, e conhecia perfeitamente seu Criador e as criaturas. A
graça de Deus na alma, e era inocente e agardável aos olhos do Altíssimo. No
seu corpo, a imortalidade. O puro amor de Deus no coração, sem temor de morte,
e por êste afeto, amava a Deus puramente, por amor Dêle mesmo. Era, enfim, tão
divino, que vivia constantemente fora de si, transportado em Deus, sem nenhuma
paixão que combater, sem nenhum inimigo que vencer. Ó liberalidade da Sabedoria
Eterna para com o homem! Ó venturoso estado de inocência!
Mas, ai!
desgraça das desgraças! Eis que êste vaso divino se parte em mil pedaços. A
linda estrela que cai. O belo sol que se cobre de lama. O homem que peca, e em
seu pecado, perde a sabedoria, a inocência, a beleza, a imortalidade. Perde
todos os bens que recebera e é avassalado por uma onda de males. Agora tem o
espírito entenebrecido e nada vê. O coração gélido em face de Deus, já não O
ama. A alma negra de pecados: parece-se com o demônio. Todas as paixões desordenadas;
já não as senhoreia. Não tem senão a companhia dos demônios, que nêle fazem
morada e o escravizam. É atacado pela criaturas, que lhe movem guerra. Eis o
homem, num instante tornado o escravo dos demônios, objeto da cólera de Deus,
vítima dos infernos!
A si mesmo
se vê tão horrendo que vai ocultar-se de vergonha. É maldito, condenado à
morte. Expulso do paraíso terrestre, sem lugar no céu, vai levar, sem esperança
de ventura, uma vida infeliz sôbre a terra amaldiçoada. Morrer como criminoso,
e depois da morte, ser condenado, como os demônios, êle e todos os seus filhos!

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