MÊS DE PREPARAÇÃO PARA CONSAGRAÇÃO A NOSSA SENHORA
ORAÇÕES PARA CADA UM
DOS DOZE DIAS
VENI CREATOR SPIRITUS.
Vem ó Criador
Espírito,
As almas dos teus
visita;
Os corações que criaste,
Enche de graça
infinita.
Tu, Paráclito és
chamado
Dom do Pai celestial,
Fogo, caridade, fonte
Viva e unção
espiritual.
Tu das septiforme
graça;
Dedo és da dextra
paterna;
Do Pai, solene
promessa,
Dás fôrça da voz
superna.
Nossa razão esclarece,
Teu amor no peito
acende,
Do nosso corpo a
fraqueza
Com tua fôrça defende.
De nós afasta o
inimigo.
Dá-nos a paz sem
demora,
Guia-nos; e evitaremos
Tudo quanto se
deplora.
A Deus Padre se dê a
glória
E ao Filho
ressuscitado,
Paráclito e a ti
também,
Com louvor perpetuado.
V. Enviai, Senhor, o
vosso Espírito, e tudo será creado.
R. E renovareis a face
da terra.
OREMOS: Ó Deus, que instruístes os corações dos vossos fiéis com a luz do
Espírito Santo; concedei-nos que no mesmo Espírito conheçamos o que é certo, e
gozemos sempre as suas consolações. Por Cristo nosso Senhor. Amém.
AVE, MARIS STELLA
Deus te salve, ó
Estrela do mar,
E de Deus Mãe bela,
Sempre Virgem, da
morada ,
Celeste feliz entrada.
Ó tu que ouviste da boca
,
Do anjo a saudação;
Dá-nos paz e
quietação:
E o nome de Eva troca.
As prisões aos réus
desata,
E a nós cegos alumia;
De tudo que nos
maltrata
Nos livra, o bem nos
granjeia.
Ostenta que és Mãe,
Fazendo que os rogos
do povo seu,
Ouça aquêle que
nascendo,
Por nós, quis ser Filho
teu.
Ó Virgem especiosa,
Toda cheia de ternura.
Extintos nossos
pecados.
Dá-nos pureza e
brandura.
Dá-nos uma vida pura.
Põe-nos em vida
segura.
Para que a Jesus
gozemos,
E sempre nos
alegremos.
A Deus Padre
veneremos;
A Jesus Cristo também,
E ao Espírito Santo;
Demos aos três um
louvor. Amém.
MEDITAÇÃO — A TRÍPLICE
CONCUPISCÊNCIA
PREPARAÇÃO
Para fugir
ao espírito do mundo é preciso conhecê-lo. O Divino Espírito Santo nos diz que
o espírito do mundo é uma repugnante concupiscência da carne, que leva aos
gozos sensuais; uma avarenta concupiscência dos olhos, que adora os mesquinhos
bens da terra; uma orgulhosa soberba da vida, que idolatra honras imerecidas. O
espírito da escravidão marial será nossa resposta à tríplice concupiscência do mundo.
MEDITAÇÃO
PRELÚDIOS
I — No mar
cheio de procelas de nossa vida terrena, levanto meus olhares a fixá-los na
Estrela da manhã, meigo Norte, suspirado Ideal.
II — Estrela
de luz e amor, Maria, levai-me pelo vosso roteiro sem escolhos, e libertai-me
de tantos perigos que ameaçam minha peregrinação.
I PONTO — O espírito do mundo é
concupiscência da carne.
Deus nos
fizera dotados de equilíbrio perfeito entre nossa alma e nosso corpo. O pecado
original destruiu essa harmonia. Agora, o corpo quer dominar o espírito; e o
demônio, príncipe do mundo, trabalha com intensidade feroz para aumentar ainda
mais o ardor com que nossa carne reclama as suas satisfações, contra o império
da razão e as luzes da fé.
“Sinto em
meus membros, confessava São Paulo, uma lei contrária que se revolta contra a
lei do espírito” (Hom. VII, 23).
É difícil
libertarmo-nos da concupiscência. Das quedas de impureza; das concessões
perigosas à sensualidade; de tôdas as ocasiões que no mundo nos assaltam os
olhos, os ouvidos, todos os nossos sentidos...
Mas eu quero
revestir-me da libré de escravo de Maria. O nome Dela é “Virgindade santa e
imaculada. Sancta et immaculata, virginitas”. Hei de ser digno de sua virginal
castidade. Filho de sua Imaculada Conceição. Para ser seu escravo, vou consagrar-lhe
também meu corpo, com todos os seus sentidos. Vencerei a concupiscência da
carne.
II PONTO — O espírito do mundo é
concupiscência dos olhos.
O espírito
de Jesus é de inteiro desapêgo dos bens da terra. O mundo adora as riquezas.
Cobiça-as, e não se detém ante nenhuma desordem, para consegui-las. E por isso
não se importa com as riquezas sobrenaturais, as únicas verdadeiras. Mas o que
se faz escravo das terrenas riquezas, forçosamente abandona a Jesus Cristo,
porque “ninguém pode servir a Deus e ao dinheiro” (Mat. VI, 24). Tenho pago
tributo a esta concupiscência? Procurando os mesquinhos bens da terra,
aceitando vender minha consciência para obtê-los? Se já os renunciei, acaso não
me vejo enredado em pequeninos apêgos demasiados, a interêsses e coisas de
minha propriedade? Não sinto verdadeira dor, quando me vejo privado dêles?
Na
consagração que farei a Nossa Senhora, entregar-lhe-ei todos os meus bens,
interiores e exteriores. Depositarei tudo em suas mãos, até mesmo meus bens
verdadeiros, de ordem espiritual, virtudes e méritos. Como o alcançarei, se
tenho o coração colado à terra? Emendar-me-ei, a fim de poder, com a alma livre
e desimpedida, depositar tudo o que tenho aos pés de minha Rainha amantíssima,
minha Riqueza e meu Tesouro.
III PONTO — O espírito do mundo é soberba da
vida.
Jesus Cristo
é a personificação da humildade. “Êle se aniquilou, tomando a forma de escravo”
(Efes. II, 7). Convida-nos a imitá-lo, “aprendei de mim que sou manso e humilde
de coração” (Mat. XI, 29). O espírito do mundo é diametralmente oposto e ensina
a soberba e o orgulho. Desde o paraíso, o demônio insuflou aos nossos primeiros
pais êsse vício hediondo. A soberba fôra o pecado de Satã e êle conseguiu que
fôsse também o pecado original da humanidade.
Pecado original,
vício capital. O primeiro, o maior obstáculo ao amor de Deus em nosso coração.
Porque nós nos amamos, não queremos amar a Deus. Todo o combate de nossa vida
cristã será essa luta contra nosso orgulhoso amor próprio. Somente progredimos
na medida em que nos renunciamos a nós mesmos.
Renúncia tão
difícil... Temos mêdo de nos despersonalizar, de abdicar “nossos direitos”,
aceitar os direitos dos outros, os direitos de Deus! Mas, renúncia tão
necessária para nos colocar na ordem essencial das coisas, para desterrar de
nossa alma a diabólica soberba...
Não é em nós
essa soberba a raiz de tôdas as misérias? De nossas faltas de caridade, de
obediência, de mansidão? Não costumamos desculpar nossos vícios e defeitos,
enganando-os a nós mesmos?
Nossa consagração
a Maria vai fazer-nos escravos. Humildes e pequeninos. Renunciaremos à nossa
vontade, colocando mesmo nas mãos de Nossa Senhora nossa honra e nossa fama, a
fim de que somente Ela nos defenda, como quiser, para glória de Deus. E
compreenderemos que a glória de Deus se faz com a humilhação nossa.
COLÓQUIOS
Mãe e
Senhora amadíssima, envergonho-me ante Vós, de minha condição tão miserável.
Rogai a Jesus me perdoe meus pecados, que agora detesto de todo o coração.
Revestí-me, Virgem puríssima, de vossa Imaculada Conceição, para que não me
nodoem mais as trevas da impureza. Dai-me vosso amor unicamente, minha
Mãe-Riqueza, para que eu me enjoe dos bens caducos da terra. Doce Escrava do
Senhor, fazei-me vosso escravo amoroso e fiel!
RAMILHETE
Deus olha
para a humildade — da alma, da carne, da vida, respexit humilitatem (Luc. I,
48).
SANTO EVANGELHO (Mat.
XVII, 24 a 27)
RENUNCIAR-SE PARA
GANHAR O CÉU
Então disse
Jesus aos seus discípulos: Se alguém quiser vir após mim, negue-se a si mesmo,
e tome a sua cruz e siga-me. Porque o que quiser salvar a sua alma, perdê-la-á,
e o que perder a sua alma, por amor de mim, acha-la-á. Porquanto de que
aproveitará ao homem ganhar todo o mundo, se vier a perder a sua alma; ou que
troca fará o homem para recobrar a sua alma? O Filho do Homem há de vir na glória
de seu Pai, com os seus anjos; e então dará a cada um a paga, segundo as suas
obras.
IMITAÇÃO DE CRISTO
(Liv. I, cap. XIII, 4 e seg.)
CONFIANÇA EM DEUS NAS
TENTAÇÕES
Quem somente
evita as ocasiões exteriores, e não arranca o mal pela raiz, pouco aproveitará;
antes lhes tornarão mais depressa as tentações, e se achará pior que dantes.
Ajudando
Deus, melhor as vencerá pouco a pouco, com paciência e bom ânimo, do que com
teu próprio esforço e fadiga.
Toma muitas
vêzes conselho na tentação, e não sejas desabrido e áspero com o que está
tentado, antes procura consolá-lo como quiseras ser consolado.
O princípio
de tôda tentação é a inconstância de ânimo e pouca confiança em Deus.
Assim como
as ondas lançam duma parte para a outra a nau a que falta o leme, assim as
tentações combatem de diversos modos o homem descuidado e inconstante no seu
propósito.
O fogo prova
o ferro, e a tentação o justo.
Muitas vêzes
não sabemos o que podemos; mas a tentação mostra-nos o que somos.
Devemos pois
vigiar principalmente no princípio da tentação; porque mais facilmente se vence
o inimigo quando o não deixamos passar da porta da alma e lhe saímos ao
encontro logo que bate. Donde veio a dizer um poeta:
Resiste no princípio;
Tarde chega o remédio,
Se já, por longo tempo
O mal raízes lançou.
“Principiis obsta; sero medicina paratur,
Cum mala per longas invaluere moras.”
(Ovidio)
Porque,
primeiramente se oferece à alma um simples pensamento, depois a importuna
imaginação, logo o deleite, daí a nada o movimento torpe, e finalmente o
consentimento.
E assim
pouco a pouco entra o maligno inimigo, e se apodera de tudo, porque se lhe não
resistiu no princípio.
E quanto
mais preguiçoso fôr o homem em resistir-lhe, tanto se fará cada dia mais fraco,
e o inimigo contra êle mais poderoso.
Alguns
padecem graves tentações no princípio de sua conversão, outros no fim, muitos
quase por tôda a vida.
Alguns são
tentados brandamente, segundo a sabedoria, e a equidade da Divina Providência
que pondera o estado e os méritos dos homens, e tudo ordena para a salvação de
seus escolhidos.
Por isso não
devemos desconfiar quando formos tentados; mas antes rogar a Deus com maior fervor
que seja servido de nos ajudar em tôda a tribulação; porque, segundo o dito de
São Paulo, “nos dará o auxílio junto com a tentação para que lhes possamos
resistir” (I Cor. X, 13).
“Humilhemos
pois nossas almas debaixo da mão de Deus” em tôda tribulação e tentação, porque
êle há de salvar e engrandecer os humildes de espírito” (I Petr. V, 6).
LEITURA (Montfort, Amour de la Sagesse
Eternelle, p. 263, pg.)
ESPÍRITO DE
MORTIFICAÇÃO, NECESSÁRIO PARA OBTER A SABEDORIA
Non
reperitur Sapientia in terra suaviter viventium (Job, XXVIII, 13). A Sabedoria,
diz o Espírito Santo, não se encontra junto aos que vivem comodamente, e dão a
seus sentidos e paixões quanto êles desejam, — porquanto, os que andam segundo
a carne não podem agradar a Deus e a sabedoria da carne é inimiga de Deus: Qui
in carne sunt placere Deo non possunt (Rom. VIII, 8). Sapientia carnis inimica
est Deo (Rom., VIII, 7). “Meu espírito não permanecerá no homem, porque o homem
é carnal” (Gen. VI, 3).
Todos os que
são de Jesus Cristo, a Sabedoria Encarnada, crucificaram sua carne com seus
vícios e concupiscências, trazem sempre a mortificação de Jesus em seus corpos,
fazem violência a si mesmos, levam sua cruz todos os dias, e enfim morreram
para serem sepultados em Jesus Cristo (Luc., IX, 23; Rom. IV, 4, 8; II Cor.,
IV, 10; GáL, V, 24). Estas palavras do Espírito Santo mostram, mais claramente
do que a luz do dia, que para possuir a Sabedoria Encarnada, Jesus Cristo, é
preciso praticar a mortificação, a renúncia ao mundo e a si mesmo.
Não
imagineis que esta Sabedoria, mais pura que os raios do sol, entre numa alma e
num corpo manchados pelos prazeres dos sentidos. Não penseis que ela confiará
seu repouso, sua paz inefável aos que amam as companhias mundanas e as
vaidades: Vincenti dabo manna absconditum, Eu darei o escondido maná aos que
vencerem o mundo e a si mesmos” (Apoc. II, 17). Esta amável Soberana, embora
por sua luz infinita conheça e distinga tôdas as coisas imediatamente, procura,
todavia, quem é digno dela. Dignos se Circuit quaerens (Sab., VI, 17). Procura,
porque o número dêles é tão exíguo que com dificuldade ela os encontra bastante
desapegados do mundo, assás mortificados e interiores para serem dignos Dela,
dignos de sua Pessoa e dos tesouros de sua aliança.
A Sabedoria
não pede, para comunicar-se, uma semimortificação, uma renúncia de alguns dias,
mas uma mortificação universal e contínua, corajosa e discreta.
A fim de possuir a Sabedoria:
1.°) Cumpre
ou deixar realmente os bens do mundo, como o fizeram os Apóstolos, os
discípulos, os primeiros cristãos e os religiosos, — o que constitui o meio
mais rápido, mais seguro e melhor de possuir a Sabedoria; ou, pelo menos, é
mister desapegar o coração dos bens, e possuí-los como se não foram possuidos,
sem solicitudes para consegui-los, sem inquietações para conservá-los, sem
queixas ou impaciências ao perdê-los, — o que é bem difícil para se executar.
2.°) Cumpre
não se conformar com a atitude dos mundanos, seja no vestuário seja nos móveis,
seja nas casas, seja nas refeições ou outras atividades da vida: Nolite
conformari huic soeculo (Rom XII, 2). Esta prática é mais necessária do que o
imaginamos.
3.°) Cumpre
não acreditar nem obedecer as máximas do mundo, não pensar, falar e agir como o
fazem os mundanos. Porque êles têm doutrina tão adversa à da Sabedoria
Encarnada, como as trevas à Luz, e a morte à vida. Ponderai-lhes os sentimentos
e expressões: pensam e falam mal de tôdas as grandes verdades. Sim, não mentem
abertamente; mas disfarçam as mentiras sob as aparências da verdade; crêem não
mentir, e todavia mentem. Não ensinam abertamente o pecado, mas o chamam virtude,
honra, decência, ou coisa indiferente e sem importância. É nesta habilidade,
aprendida do demônio para dissimular a deformidade do pecado e da mentira, que
consiste a malícia de que fala S. João: Mundus totus in maligno positus est,
Todo o mundo está penetrado de malícia (I Joa., V 19) agora mais do que nunca.
4.°) Cumpre,
o mais possível, fugir da companhia dos homens, não só dos mundanos,
perniciosos ou perigosos, mas até das pessoas devotas, quando sua conversação é
inútil e faz perder tempo. Quem deseja tornar-se sábio e perfeito, ponha por
obra as três áureas palavras que disse a S. Arsênio a Eterna Sabedoria: Fuge,
late, tace. Fugi, escondei-vos, calai-vos! Fugi quanto possível à companhia dos
homens, como faziam os grandes santos Maximi sanctorum humana consortia quantum
poterant vitabant (Imit. Cristo liv. I, 20, 1). Esteja vossa vida escondida com
Jesus Cristo em Deus, Vita vestra est abscondita cum Christo in Deo (Colos.,
III, 3). Guardai, enfim, o silêncio com os homens, para vos entreterdes com a
Sabedoria: Um homem silencioso é um homem sábio. Est tacens qui invenitur
sapiens (Ecli., XX, 5).

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