domingo, 3 de maio de 2020

MÊS DE PREPARAÇÃO PARA CONSAGRAÇÃO A NOSSA SENHORA

TERCEIRO DIA (3)


ORAÇÕES PARA CADA UM DOS DOZE DIAS

VENI CREATOR SPIRITUS.

Vem ó Criador Espírito,
As almas dos teus visita; 
Os corações que criaste,
Enche de graça infinita.

Tu, Paráclito és chamado
Dom do Pai celestial,
Fogo, caridade, fonte
Viva e unção espiritual.

Tu das septiforme graça;
Dedo és da dextra paterna;
Do Pai, solene promessa,
Dás fôrça da voz superna.

Nossa razão esclarece,
Teu amor no peito acende,
Do nosso corpo a fraqueza
Com tua fôrça defende.

De nós afasta o inimigo.
Dá-nos a paz sem demora,
Guia-nos; e evitaremos
Tudo quanto se deplora.

A Deus Padre se dê a glória
E ao Filho ressuscitado,
Paráclito e a ti também,
Com louvor perpetuado.

V. Enviai, Senhor, o vosso Espírito, e tudo será creado.
R. E renovareis a face da terra.

OREMOS: Ó Deus, que instruístes os corações dos vossos fiéis com a luz do Espírito Santo; concedei-nos que no mesmo Espírito conheçamos o que é certo, e gozemos sempre as suas consolações. Por Cristo nosso Senhor. Amém.

AVE, MARIS STELLA
Deus te salve, ó Estrela do mar,
E de Deus Mãe bela,
Sempre Virgem, da morada ,
Celeste feliz entrada.

Ó tu que ouviste da boca ,
Do anjo a saudação;
Dá-nos paz e quietação:
E o nome de Eva troca.

As prisões aos réus desata,
E a nós cegos alumia;
De tudo que nos maltrata
Nos livra, o bem nos granjeia.

Ostenta que és Mãe,
Fazendo que os rogos do povo seu,
Ouça aquêle que nascendo,
Por nós, quis ser Filho teu.

Ó Virgem especiosa,
Toda cheia de ternura.
Extintos nossos pecados.
Dá-nos pureza e brandura.

Dá-nos uma vida pura.
Põe-nos em vida segura.
Para que a Jesus gozemos,
E sempre nos alegremos.

A Deus Padre veneremos;
A Jesus Cristo também,
E ao Espírito Santo;
Demos aos três um louvor. Amém.

MEDITAÇÃO — A TRÍPLICE CONCUPISCÊNCIA

PREPARAÇÃO

            Para fugir ao espírito do mundo é preciso conhecê-lo. O Divino Espírito Santo nos diz que o espírito do mundo é uma repugnante concupiscência da carne, que leva aos gozos sensuais; uma avarenta concupiscência dos olhos, que adora os mesquinhos bens da terra; uma orgulhosa soberba da vida, que idolatra honras imerecidas. O espírito da escravidão marial será nossa resposta à tríplice concupiscência do mundo.

MEDITAÇÃO

PRELÚDIOS

            I — No mar cheio de procelas de nossa vida terrena, levanto meus olhares a fixá-los na Estrela da manhã, meigo Norte, suspirado Ideal.
            II — Estrela de luz e amor, Maria, levai-me pelo vosso roteiro sem escolhos, e libertai-me de tantos perigos que ameaçam minha peregrinação.

I PONTOO espírito do mundo é concupiscência da carne.

            Deus nos fizera dotados de equilíbrio perfeito entre nossa alma e nosso corpo. O pecado original destruiu essa harmonia. Agora, o corpo quer dominar o espírito; e o demônio, príncipe do mundo, trabalha com intensidade feroz para aumentar ainda mais o ardor com que nossa carne reclama as suas satisfações, contra o império da razão e as luzes da fé.
            “Sinto em meus membros, confessava São Paulo, uma lei contrária que se revolta contra a lei do espírito” (Hom. VII, 23).
            É difícil libertarmo-nos da concupiscência. Das quedas de impureza; das concessões perigosas à sensualidade; de tôdas as ocasiões que no mundo nos assaltam os olhos, os ouvidos, todos os nossos sentidos...
            Mas eu quero revestir-me da libré de escravo de Maria. O nome Dela é “Virgindade santa e imaculada. Sancta et immaculata, virginitas”. Hei de ser digno de sua virginal castidade. Filho de sua Imaculada Conceição. Para ser seu escravo, vou consagrar-lhe também meu corpo, com todos os seus sentidos. Vencerei a concupiscência da carne.

II PONTOO espírito do mundo é concupiscência dos olhos.

            O espírito de Jesus é de inteiro desapêgo dos bens da terra. O mundo adora as riquezas. Cobiça-as, e não se detém ante nenhuma desordem, para consegui-las. E por isso não se importa com as riquezas sobrenaturais, as únicas verdadeiras. Mas o que se faz escravo das terrenas riquezas, forçosamente abandona a Jesus Cristo, porque “ninguém pode servir a Deus e ao dinheiro” (Mat. VI, 24). Tenho pago tributo a esta concupiscência? Procurando os mesquinhos bens da terra, aceitando vender minha consciência para obtê-los? Se já os renunciei, acaso não me vejo enredado em pequeninos apêgos demasiados, a interêsses e coisas de minha propriedade? Não sinto verdadeira dor, quando me vejo privado dêles?
            Na consagração que farei a Nossa Senhora, entregar-lhe-ei todos os meus bens, interiores e exteriores. Depositarei tudo em suas mãos, até mesmo meus bens verdadeiros, de ordem espiritual, virtudes e méritos. Como o alcançarei, se tenho o coração colado à terra? Emendar-me-ei, a fim de poder, com a alma livre e desimpedida, depositar tudo o que tenho aos pés de minha Rainha amantíssima, minha Riqueza e meu Tesouro.

III PONTO O espírito do mundo é soberba da vida.

            Jesus Cristo é a personificação da humildade. “Êle se aniquilou, tomando a forma de escravo” (Efes. II, 7). Convida-nos a imitá-lo, “aprendei de mim que sou manso e humilde de coração” (Mat. XI, 29). O espírito do mundo é diametralmente oposto e ensina a soberba e o orgulho. Desde o paraíso, o demônio insuflou aos nossos primeiros pais êsse vício hediondo. A soberba fôra o pecado de Satã e êle conseguiu que fôsse também o pecado original da humanidade.
            Pecado original, vício capital. O primeiro, o maior obstáculo ao amor de Deus em nosso coração. Porque nós nos amamos, não queremos amar a Deus. Todo o combate de nossa vida cristã será essa luta contra nosso orgulhoso amor próprio. Somente progredimos na medida em que nos renunciamos a nós mesmos.
            Renúncia tão difícil... Temos mêdo de nos despersonalizar, de abdicar “nossos direitos”, aceitar os direitos dos outros, os direitos de Deus! Mas, renúncia tão necessária para nos colocar na ordem essencial das coisas, para desterrar de nossa alma a diabólica soberba...
            Não é em nós essa soberba a raiz de tôdas as misérias? De nossas faltas de caridade, de obediência, de mansidão? Não costumamos desculpar nossos vícios e defeitos, enganando-os a nós mesmos?
            Nossa consagração a Maria vai fazer-nos escravos. Humildes e pequeninos. Renunciaremos à nossa vontade, colocando mesmo nas mãos de Nossa Senhora nossa honra e nossa fama, a fim de que somente Ela nos defenda, como quiser, para glória de Deus. E compreenderemos que a glória de Deus se faz com a humilhação nossa.

COLÓQUIOS
            Mãe e Senhora amadíssima, envergonho-me ante Vós, de minha condição tão miserável. Rogai a Jesus me perdoe meus pecados, que agora detesto de todo o coração. Revestí-me, Virgem puríssima, de vossa Imaculada Conceição, para que não me nodoem mais as trevas da impureza. Dai-me vosso amor unicamente, minha Mãe-Riqueza, para que eu me enjoe dos bens caducos da terra. Doce Escrava do Senhor, fazei-me vosso escravo amoroso e fiel!

RAMILHETE
            Deus olha para a humildade — da alma, da carne, da vida, respexit humilitatem (Luc. I, 48).

SANTO EVANGELHO (Mat. XVII, 24 a 27)

RENUNCIAR-SE PARA GANHAR O CÉU

            Então disse Jesus aos seus discípulos: Se alguém quiser vir após mim, negue-se a si mesmo, e tome a sua cruz e siga-me. Porque o que quiser salvar a sua alma, perdê-la-á, e o que perder a sua alma, por amor de mim, acha-la-á. Porquanto de que aproveitará ao homem ganhar todo o mundo, se vier a perder a sua alma; ou que troca fará o homem para recobrar a sua alma? O Filho do Homem há de vir na glória de seu Pai, com os seus anjos; e então dará a cada um a paga, segundo as suas obras.

IMITAÇÃO DE CRISTO (Liv. I, cap. XIII, 4 e seg.)

CONFIANÇA EM DEUS NAS TENTAÇÕES

            Quem somente evita as ocasiões exteriores, e não arranca o mal pela raiz, pouco aproveitará; antes lhes tornarão mais depressa as tentações, e se achará pior que dantes.
            Ajudando Deus, melhor as vencerá pouco a pouco, com paciência e bom ânimo, do que com teu próprio esforço e fadiga.
            Toma muitas vêzes conselho na tentação, e não sejas desabrido e áspero com o que está tentado, antes procura consolá-lo como quiseras ser consolado.
            O princípio de tôda tentação é a inconstância de ânimo e pouca confiança em Deus.
            Assim como as ondas lançam duma parte para a outra a nau a que falta o leme, assim as tentações combatem de diversos modos o homem descuidado e inconstante no seu propósito.
            O fogo prova o ferro, e a tentação o justo.
            Muitas vêzes não sabemos o que podemos; mas a tentação mostra-nos o que somos.
            Devemos pois vigiar principalmente no princípio da tentação; porque mais facilmente se vence o inimigo quando o não deixamos passar da porta da alma e lhe saímos ao encontro logo que bate. Donde veio a dizer um poeta:
Resiste no princípio;
Tarde chega o remédio,
Se já, por longo tempo
O mal raízes lançou.
“Principiis obsta; sero medicina paratur,
Cum mala per longas invaluere moras.”
(Ovidio)

            Porque, primeiramente se oferece à alma um simples pensamento, depois a importuna imaginação, logo o deleite, daí a nada o movimento torpe, e finalmente o consentimento.
            E assim pouco a pouco entra o maligno inimigo, e se apodera de tudo, porque se lhe não resistiu no princípio.
            E quanto mais preguiçoso fôr o homem em resistir-lhe, tanto se fará cada dia mais fraco, e o inimigo contra êle mais poderoso.
            Alguns padecem graves tentações no princípio de sua conversão, outros no fim, muitos quase por tôda a vida.
            Alguns são tentados brandamente, segundo a sabedoria, e a equidade da Divina Providência que pondera o estado e os méritos dos homens, e tudo ordena para a salvação de seus escolhidos.
            Por isso não devemos desconfiar quando formos tentados; mas antes rogar a Deus com maior fervor que seja servido de nos ajudar em tôda a tribulação; porque, segundo o dito de São Paulo, “nos dará o auxílio junto com a tentação para que lhes possamos resistir” (I Cor. X, 13).
            “Humilhemos pois nossas almas debaixo da mão de Deus” em tôda tribulação e tentação, porque êle há de salvar e engrandecer os humildes de espírito” (I Petr. V, 6).

LEITURA (Montfort, Amour de la Sagesse Eternelle, p. 263, pg.)

ESPÍRITO DE MORTIFICAÇÃO, NECESSÁRIO PARA OBTER A SABEDORIA

            Non reperitur Sapientia in terra suaviter viventium (Job, XXVIII, 13). A Sabedoria, diz o Espírito Santo, não se encontra junto aos que vivem comodamente, e dão a seus sentidos e paixões quanto êles desejam, — porquanto, os que andam segundo a carne não podem agradar a Deus e a sabedoria da carne é inimiga de Deus: Qui in carne sunt placere Deo non possunt (Rom. VIII, 8). Sapientia carnis inimica est Deo (Rom., VIII, 7). “Meu espírito não permanecerá no homem, porque o homem é carnal” (Gen. VI, 3).
            Todos os que são de Jesus Cristo, a Sabedoria Encarnada, crucificaram sua carne com seus vícios e concupiscências, trazem sempre a mortificação de Jesus em seus corpos, fazem violência a si mesmos, levam sua cruz todos os dias, e enfim morreram para serem sepultados em Jesus Cristo (Luc., IX, 23; Rom. IV, 4, 8; II Cor., IV, 10; GáL, V, 24). Estas palavras do Espírito Santo mostram, mais claramente do que a luz do dia, que para possuir a Sabedoria Encarnada, Jesus Cristo, é preciso praticar a mortificação, a renúncia ao mundo e a si mesmo.
            Não imagineis que esta Sabedoria, mais pura que os raios do sol, entre numa alma e num corpo manchados pelos prazeres dos sentidos. Não penseis que ela confiará seu repouso, sua paz inefável aos que amam as companhias mundanas e as vaidades: Vincenti dabo manna absconditum, Eu darei o escondido maná aos que vencerem o mundo e a si mesmos” (Apoc. II, 17). Esta amável Soberana, embora por sua luz infinita conheça e distinga tôdas as coisas imediatamente, procura, todavia, quem é digno dela. Dignos se Circuit quaerens (Sab., VI, 17). Procura, porque o número dêles é tão exíguo que com dificuldade ela os encontra bastante desapegados do mundo, assás mortificados e interiores para serem dignos Dela, dignos de sua Pessoa e dos tesouros de sua aliança.
            A Sabedoria não pede, para comunicar-se, uma semimortificação, uma renúncia de alguns dias, mas uma mortificação universal e contínua, corajosa e discreta.
A fim de possuir a Sabedoria:
            1.°) Cumpre ou deixar realmente os bens do mundo, como o fizeram os Apóstolos, os discípulos, os primeiros cristãos e os religiosos, — o que constitui o meio mais rápido, mais seguro e melhor de possuir a Sabedoria; ou, pelo menos, é mister desapegar o coração dos bens, e possuí-los como se não foram possuidos, sem solicitudes para consegui-los, sem inquietações para conservá-los, sem queixas ou impaciências ao perdê-los, — o que é bem difícil para se executar.
            2.°) Cumpre não se conformar com a atitude dos mundanos, seja no vestuário seja nos móveis, seja nas casas, seja nas refeições ou outras atividades da vida: Nolite conformari huic soeculo (Rom XII, 2). Esta prática é mais necessária do que o imaginamos.
            3.°) Cumpre não acreditar nem obedecer as máximas do mundo, não pensar, falar e agir como o fazem os mundanos. Porque êles têm doutrina tão adversa à da Sabedoria Encarnada, como as trevas à Luz, e a morte à vida. Ponderai-lhes os sentimentos e expressões: pensam e falam mal de tôdas as grandes verdades. Sim, não mentem abertamente; mas disfarçam as mentiras sob as aparências da verdade; crêem não mentir, e todavia mentem. Não ensinam abertamente o pecado, mas o chamam virtude, honra, decência, ou coisa indiferente e sem importância. É nesta habilidade, aprendida do demônio para dissimular a deformidade do pecado e da mentira, que consiste a malícia de que fala S. João: Mundus totus in maligno positus est, Todo o mundo está penetrado de malícia (I Joa., V 19) agora mais do que nunca.
            4.°) Cumpre, o mais possível, fugir da companhia dos homens, não só dos mundanos, perniciosos ou perigosos, mas até das pessoas devotas, quando sua conversação é inútil e faz perder tempo. Quem deseja tornar-se sábio e perfeito, ponha por obra as três áureas palavras que disse a S. Arsênio a Eterna Sabedoria: Fuge, late, tace. Fugi, escondei-vos, calai-vos! Fugi quanto possível à companhia dos homens, como faziam os grandes santos Maximi sanctorum humana consortia quantum poterant vitabant (Imit. Cristo liv. I, 20, 1). Esteja vossa vida escondida com Jesus Cristo em Deus, Vita vestra est abscondita cum Christo in Deo (Colos., III, 3). Guardai, enfim, o silêncio com os homens, para vos entreterdes com a Sabedoria: Um homem silencioso é um homem sábio. Est tacens qui invenitur sapiens (Ecli., XX, 5).

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