sábado, 4 de abril de 2020


PE. ROSÁRIO E A NOVENA DE SÃO JOSÉ
Pe. Rosário discursa na Câmara Municipal de Campos
onde exerceu o cargo de Vereador por mais de 35 anos

Extraído do Livro: "Lembranças e Reflexões de um Padre" - (Páginas 118 a 122)
Pe. Antônio Ribeiro do Rosário
Publicado em 1984


COMO DEIXEI A CATEDRAL
         O ano de 1941 foi o último que passei como cura da Catedral. Já disse que entrei na Catedral contra minha vontade, simplesmente por obediência. Aos poucos fui-me acostumando com o ambiente e acabei por sentir-me à vontade.
         O Arcebispo Dom Otaviano parecia satisfeito com meu modesto trabalho. Mais ainda, mostrava prazer em ter-me na sua companhia.
             Chegou a convidar-me para morar na residência episcopal, e eu, respeitosamente, declinei do honroso convite. Freqüentemente o acompanhava nas suas visitas pastorais, e devo dizer que gostava desses passeios.
         Não sei por que cargas d'água, nomeou-me secretário do Bispado, a mim, que sou a mais perfeita negação para serviços de secretaria.
         Dom Otaviano era um homem bom. Na sua idade avançada, batido das lutas, sacrifícios e desgostos de uma vida cheia de peripécias, era preciso compreendê-lo para saber que, no íntimo, guardava um coração de Ouro. Impetuoso temperamental, mudava repentinamente seus assomos de indignação em extremos de ternura.
Dom Otaviano 

         Para surpresa minha, um dia desapareceu, por motivo banal, a amizade paternal que o velho Arcebispo me tinha:    Apareceu em Campos um certo cidadão, vindo do Rio, com um "livro de ouro", solicitando auxílios para determinada obra assistencial. Constavam no referido "livro de ouro", aliás muito bonito, nomes de alta expressão social, como promotores da tal obra.
         O Arcebispo viu com bons olhos o pedido de auxílio. Redigiu rapidamente uma carta, prometendo levar pessoalmente sua contribuição, quando fosse ao Rio. Deu-me o rascunho para que eu datilografasse, o que fiz imediatamente.
         S.Exa. não gostou do meu trabalho. Desculpei-me, reafirmando a minha falta de jeito para serviços de secretaria, e pedi encarecidamente que me dispensasse do cargo.
         Mal impressionado com minha atitude, Dom Otaviano, desde esse dia começou a tratar-me de modo diferente. Certa vez, chegou a dizer-me: "Enganei-me com o senhor."
         Ia-me esquecendo de dizer que o portador do "livro de ouro" foi-se embora muito desconsolado levando a carta do Arcebispo. O seu interesse era levar dinheiro, não para entregar a ninguém, mas para ficar com ele.
         Rasgou-a, por certo, jogou fora, pois a verdade é que a tal "obra assistencial" não existia, e eram falsas as assinaturas dos "promotores", o que depois ficou positivado.
         Descido das graças do Senhor Arcebispo, era justo que depusesse em suas mãos o curato da Catedral, cargo de confiança. Aliás, não é verdade que para lá eu tinha ido e contra minha vontade?
         Mas nessas ocasiões, nunca ficamos sós. Fatalmente nos acompanham, qual lúgubre cortejo, os apegos humanos, o amor próprio disfarçado em zelo, as vaidades, as ambições.
         Precisava de uma voz amiga que prudentemente me aconselhasse naquela hora difícil, e não a encontrava.
         Por várias vezes fui interpelado pelo Senhor Arcebispo, que me perguntava se eu queria ser exonerado. E eu — aliás por questão de princípios — lhe respondia invariavelmente que, como padre, aceitava o que o meu Superior determinasse. Mas o Senhor Arcebispo parece que não acreditava na minha sinceridade.
         Se Dom Otaviano me tivesse dito simplesmente que tinha outra missão para mim, obedecer-lhe-ia prontamente, mesmo que no fundo não ficasse satisfeito.  E ainda hoje não sei por que tanta cerimônia comigo.
         Entretanto o fim do ano se aproximava, e eu não me sentia bem de saúde. Passara o ano todo com uma gripe rebelde, que por pouco não descambou em tuberculose.
         Alarmado com o resultado da radiografia do meu pulmão, prescreveu-me o médico um mês de repouso em região saudável.
         O Senhor Dom Otaviano concordou que eu me retirasse para Varre-Sai, onde permaneci cerca de um mês, na Casa Paroquial, graças à benevolência do então vigário, Padre José Pardo Villar. Substituiu-me na Catedral Monsenhor Júlio Moura, originário de um Diocese do Nordeste do Brasil.
         O clima ameno de Varre-Sai me foi favorável. Em pouco tempo me senti reanimado.
         Mas não pude completar o meu estágio, porque recebi ordem para substituir por alguns dias o Revmo. Vigário de Natividade, que teve de ausentar-se da Paróquia.
         No dia em que rumei de ônibus para Natividade, logo pela manhã senti sérios distúrbios intestinais. Era a explosão de uma colite que amargurou minha vida por muitos anos e de que ainda hoje não estou de todo libertado.
         Piorei em Natividade. Tive de recorrer ao médico.
         Em uma noite, sozinho na casa paroquial, experimentei estranha sensação de frio em todo o corpo!        Estava deitado no chão de cimento do banheiro, acordando de um desmaio.
         Logo que voltou o Vigário, apressei-me em regressar a Campos.
         Não me convinha continuar o meu repouso em Varre-Sai, pois, além de precisar submeter-me a sério tratamento da saúde, tinha os bolsos completamente exauridos.

              E agora?.. . Desarvorado, sem ocupação, sem tostão, aguardei as ordens diocesanas.
         Em Campos chegou logo aos meus ouvidos a notícia de que eu não voltaria para meu posto na Catedral.
         E não faltou quem explorasse o caso, inclusive na Imprensa. Disseram em artigo de jornal que Padre Rosário estava sendo afastado da Catedral porque fez muito batizado de graça. Tudo invencionice.
         É verdade que não escreveram contra Dom Otaviano nem a vigésima parte do que ultimamente contra Dom Mayer, nem a centésima parte do que ainda hoje se publica contra Dom Navarro. Mas, que houve desrespeito, isso houve.
         Não publiquei nada contra o Bispo, nem mandei ninguém publicar coisa alguma. Entretanto, aborrecido como estava, aquelas manifestações populares no fundo me agradavam. Infelizmente.
         Quando hoje vejo padres novinhos endeusados nos jornais, aplaudidos por fiéis inexperientes, atirados contra o Bispo, apoiados em abaixo-assinados, contemplados com banquetes regados a champanhe, só me lembro de mim — vítima como eles da ingenuidade ou da maldade dos homens.
         Se naquela época deixei-me embalar, algum tanto, por um populismo ilusório, sei hoje muito bem quanto isso é prejudicial ao padre.
         Foi-me afinal comunicado, pessoalmente pelo Senhor Arcebispo, a minha designação para a Paróquia de Nossa Senhora do Rosário, do bairro do Saco.
         Dessa vez, sim, encontrei um amigo verdadeiro que teve uma palavra de luz para minha alma conturbada.
         Esse amigo — Deus o tenha na sua Glória! — foi o Missionário Redentorista, Padre Miguel, alma ardente de apóstolo, que vivia percorrendo os recantos da cidade, pregando a Palavra de Deus.
Padre Miguel - Missionário Redentorista 
Fazenda Liberdade - Carabuçu - Década de 1940

         Com sua voz pausada, que ainda soa aos meus ouvidos, Padre Miguel me disse confidencialmente: "Hoje é dia dez de março, dia em que se começa a novena de São José. O senhor deve ir muito alegre para a Igreja do Saco. Faça lá desde hoje a novena de São Jose."
         Ah! Meu Deus! Padre Miguel foi o instrumento da Providência Divina naquela encruzilhada de minha vida. E, desde esse dia, senti que São José me tomou sob sua proteção, valendo-me em minhas angústias.
Dissiparam-se minhas tristezas. Abrandou-se meu amor próprio. Fui vencendo meus apegos.


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